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sexta-feira, 9 de setembro de 2011

O RELATO DE JANE ELIZABETH MANNING JAMES


Para continuar a discussão do racismo na igreja, recebi esse relato de um conhecido americano, afastado da igreja, que fala um pouco sobre a vida dessa mulher negra na igreja. Basta saber que quem conta a história é um ex-membro da igreja, em primeira pessoa. Se alguém quiser detalhes vai ter que pesquisar nos registros históricos da igreja. É meio longo, mas extremamente interessante...

"Naquele verão de 1980, estava completando um projeto de pesquisa através do Departamento Histórico SUD, sobre "Os Negros e o Sacerdócio". Durante a pesquisa, tive o privilégio de ter nas mãos o manuscrito autobiográfico de Jane Elizabeth Manning James, uma negra que foi convertida ao Mormonismo no Estado de Connecticut em 1842, e um ano mais tarde andou a pé descalça desde Nova Iorque até Nauvoo, Illinois, a sede da igreja naquela época. Ao chegar a Nauvoo, ela encontrou o profeta Joseph Smith Jr., que a abraçou e disse, resumindo uma passagem do livro do Apocalipse 7:17, “Seja bem vinda a Sião, Jane! Nós limpamos toda lágrima aqui!” O relato dela – e especialmente as palavras de Joseph a ela - me aqueceram a alma! Como Jane James, eu era um membro marginalizado da sociedade. Como Jane, no fundo da alma, eu busquei aquele lugar de refúgio seguro, aquele espaço certo de asilo onde eu poderia ser curado e ter todas as lágrimas enxutas. Como Jane acreditou, nenhum valor seria alto demais por aquele lugar.
Quando eu fui ao Brasil para servir como missionário, eu recontei a história de Jane muitas vezes às congregações locais (especialmente ao dar as boas vindas aos membros novos), mas eu sempre terminei aí, com Jane no abraço de Joseph, tendo as lágrimas secadas em Sião. Mas isso não é tudo do relato dela. Minha própria necessidade de encontrar refúgio no Mormonismo me deixou cega a certos fatos desagradáveis sobre a vida de Jane. Por exemplo, a razão que Jane andou a pé até Nauvoo foi por que os Mórmons brancos não a dariam uma carroça, nem a ajudariam a pagar sua passagem de trem ou barco. E quando ela chegou em "Nauvoo a Bela", aquela “Sião no rio Mississipi”, ela foi ou rejeitada ou evadida pelos Santos brancos. Finalmente uma pessoa encaminhou-a à casa de Joseph Smith Jr. para conhecer o profeta finalmente. Joseph empregou Jane como criada de casa (quase escrava), e quando Smith foi morto em 1844, Brigham Young então a empregou como sua criada também.
A despeito de seu serviço fiel à igreja e aos Presidentes ricos, ela viveu a maior parte de sua vida em pobreza abjeta. Ela chegou à nova Sião de Utah, no meio dos Santos pioneiros, em Setembro de 1847, a primeira negra livre no território, somente para descobrir que a escravidão já era praticada lá.
Até mesmo o Apóstolo Mórmon Charles C. Rich possuiu negros cativos em Utah, o que deve ter sido uma prova grande de sua fé (como foi da minha quando eu o descobri). Muitos anos antes da morte de Jane, ela começou a escrever cartas aos líderes Mórmons (inclusive a Apóstolos e Presidentes), implorando-lhes para deixá-la entrar no Templo de Salt Lake City para ser selada a Joseph e Emma Smith como sua filha adotiva. Jane contou-lhes que Emma Smith pediu-lhe pessoalmente em Nauvoo, mas Jane demorou a responder, e logo depois Joseph foi assassinado. Apesar de sua forte fé na religião SUD, pois aos homens de sangue africano era vedado possuir o sacerdócio Mórmon naquele tempo, a Jane James e todos os negros era negado a entrada aos Templos, uma lembrança dolorosa de seu estado inferior na hierarquia eclesiástica Mórmon – na verdade a mesma situação de qualquer criança Mórmon de apenas oito anos.
Mas Jane James era persistente na petição de ser selada á família Smith. E finalmente, na primavera de 1894, ela recebeu notícias que seria selada a Joseph Smith Jr. e sua família no Templo de Salt Lake City no dia 18 de Maio. Porém, mais uma vez, lhe foi negada a entrada à “Casa do Senhor”. Ao invés disso, líderes eclesiásticos tinham providenciado uma branca (Bathsheba W. Smith) para representar Jane James, porque a mera presença física dessa mulher preta, forte, e fiel difamaria a santidade do templo recentemente terminado.
Em seguida, a acrescentar insulto a injúria, em vez de ser selada a Joseph Smith como uma filha, como ela esperou, Jane foi selada pela substituta a Joseph como sua “Serva Eterna” (a única vez na história de Mormonismo que este tipo de cerimônia foi realizada entre dono e criado). As palavras recitadas nesta cerimônia eram que Jane seria “ligada como Serva para a eternidade ao profeta Joseph Smith Jr. e desta forma ser ligada a sua família e ser obediente a ele em todas as coisas no Senhor como Serva fiel”. Em essência, uma escrava eterna, sentenciada a servir um dono branco por toda a eternidade.
Não derrotada por este gesto humilhante, ela continuou exigir dos líderes SUD sua permissão para entrar no Templo, até sua morte em 1908, com a idade de 95 anos.
Quando eu leio as petições sinceras, mas inúteis aos líderes eclesiásticos Mórmons, eu sei que Sião não tinha secada suas lágrimas como prometido, mas aumentou-as em magnitude.
Sião não podia cumprir sua promessa a nós dois, mas de fato piorou a ferida; os que prometeram e professaram Sião amarram-nos com as cadeias da injustiça e depois fazem um desfile de nosso cativeiro. Onde ficava Sião para essa bela, perseverante, e fiel mulher?”

Os historiadores Mórmons são “experts” em achar frases que mostram preconceito e discriminação contra os próprios Mórmons (o manual História da Igreja na Plenitude dos Tempos está repleto delas), mas escondem o lado podre da própria história...
Que bom que essa pessoa, ex-membro do mormonismo resolveu contar a verdade que ela descobriu...
Preconceito é crime, é sujo e é nojento!
Um futuro melhor só se faz reconhecendo os erros do passado. Mesmo assim continuo ouvir que a igreja é perfeita...
Em quem vão botar a culpa desses erros? Nas revelações não tão perfeitas que os membros recebiam? E o Apóstolo que manteve escravos em Utah?! Ah, coitado, vai ver a mulher dele não conseguia capinar o quintal. Então resolveu fazer o favor de dar o privilégio da companhia desses brancos tão melhores, por alguns segundos ao dia para uma negra escrava, que não era digna de entrar no Templo dos mais perfeitos!


Texto postado na comunidade Ex-Mórmons Brasil por Marcos Cintra em 03 abr 2006. Publicado com sua autorização. Disponível em:
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5 comentários:

  1. Conheço essa história e o autor dela (O'Donovan) - que pesquisou os registros históricos da igreja mórmon em Salt Lake City. Eu o conheci na missão Porto Alegre na década de 80. Essa história é completamente verdadeira e é escondida pela igreja mórmon - nunca li em nenhum manual de lição da igreja ou manual de instrução ou liahona (talvez com receio de que as pessoas se afastem da igreja ao ser revelado o passado tão horrível, tão obscuro da igreja).
    Hoje o colega O'Donovan não pertence e nem segue mais os mórmons.
    Até 1978 os homens de raça negra, ou mesmo brancos que tinham linhagem negra eram proibidos de serem ordenados ao sacerdócio, tanto o sacerdócio aarônico (menor) como o sacerdócio de melquizedeque (maior), consequentemente essas pessoas consideradas "malditas" pela igreja mórmon por causa da cor de pele e a igreja alegava que eram descendentes de Caim que matou Abel e Deus colocou uma marca na pele (cor negra, segundo os mórmons alegam).
    Os negros, não podiam (nem mulheres negras): servir missões, entrar nos templos mórmons (vejam o exemplo claro na história narrada acima pelo Antonio Carlos), portar o sacerdócio, nem participarem de reuniões do sacerdócio. Eram em suma considerados cidadãos de terceira ou quarta categoria.
    Nunca concordei com essa política racista da igreja. Tive amigos negros que nunca se filiaram a igreja por causa desse absurdo, de serem excluídos e discriminados até 1978.
    Por mais que os mórmons fanáticos insistam em afirmar que tudo isso foi mentira, basta ler a história acima desse blog e ver como as coisas funcionavam antes de 1978 na igreja mórmon. É a pura realidade: exclusão, preconceito, colocar as pessoas de lado, humilhação, etc.
    A verdade tem que ser mostrada, doa a quem doer. O blog do Antonio Carlos tem esse compromisso, de mostrar a verdade sobre os mórmons.

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  2. (Via Facebook)

    Edson!

    Conheço essa história e o autor dela (O'Donovan) - que pesquisou os registros históricos da igreja mórmon em Salt Lake City. Eu o conheci na missão Porto Alegre na década de 80. Essa história é completamente verdadeira e é escondida pela igreja mórmon - nunca li em nenhum manual de lição da igreja ou manual de instrução ou liahona (talvez com receio de que as pessoas se afastem da igreja ao ser revelado o passado tão horrível, tão obscuro da igreja).
    Hoje o colega O'Donovan não pertence e nem segue mais os mórmons.
    Até 1978 os homens de raça negra, ou mesmo brancos que tinham linhagem negra eram proibidos de serem ordenados ao sacerdócio, tanto o sacerdócio aarônico (menor) como o sacerdócio de melquizedeque (maior), consequentemente essas pessoas consideradas "malditas" pela igreja mórmon por causa da cor de pele e a igreja alegava que eram descendentes de Caim que matou Abel e Deus colocou uma marca na pele (cor negra, segundo os mórmons alegam).
    Os negros, não podiam (nem mulheres negras): servir missões, entrar nos templos mórmons (vejam o exemplo claro na história narrada acima pelo Antonio Carlos), portar o sacerdócio, nem participarem de reuniões do sacerdócio. Eram em suma considerados cidadãos de terceira ou quarta categoria.
    Nunca concordei com essa política racista da igreja. Tive amigos negros que nunca se filiaram a igreja por causa desse absurdo, de serem excluídos e discriminados até 1978.
    Por mais que os mórmons fanáticos insistam em afirmar que tudo isso foi mentira, basta ler a história acima desse blog e ver como as coisas funcionavam antes de 1978 na igreja mórmon. É a pura realidade: exclusão, preconceito, colocar as pessoas de lado, humilhação, etc.
    A verdade tem que ser mostrada, doa a quem doer. O blog do Antonio Carlos tem esse compromisso, de mostrar a verdade sobre os mórmons.

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  3. Edson!

    Eu não consigo entender como é que uma pessoa negra pode aceitar o mormonismo e se batizar. Não entra na minha cabeça isso. É querer ser muito humilhado. Não entendo como os africanos aceitam o mormonismo. Eu sei que a igreja esconde dos negros esse preconceito racista, mas hoje temos a internet. As informações estão sendo difundidas e só aceita se batizar na Igreja mórmon se realmente quiser ser tolo ou iludido.

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  4. Tudo que o Edson falou e fato: "exclusão, preconceito, colocar as pessoas de lado, humilhação, etc." Sao presenciados na igreja mormon ate os dias atuais, e digo que nao e so os negros.
    Tem uma mormon que se vangloria na missao de ser mae, achava o blog dela uma gracinha, ela usava palavras doces e as vezes engracadas,mas fui pegando nojo com o tempo e parei de ler. Porque? Porque ela nunca posta fotos dela e dos filhos no blog com negros ou os pobres da Ala. Conheco pessoa por pessoa daquela Ala e sei quem tem e quem nao tem. So pra ter uma ideia ela faz questao de convidar pra casa dela as pessoas mais influentes da igreja, outro dia uma das irmas que tem toda a familia por perto foi ganhar nenem, ela fez de tudo pra ficar com os filhos dessa mulher enquanto a mesma estava no hospital. E ai que bate aquela raiva, quantas mulheres na Ala necessita desse apoio? Nao tem familia por perto, nao tem dinheiro pra pagar alguem pra tomar conta dos filhos enquanto precisa ir ao medico ou coisa do tipo? E ela so ficou com as criancas porque essa mulher e rica e influente na igreja.
    E assim que funciona o "capitalismo mormon": Pra os ricos tudo, pra os pobres nada! Comecou assim e vai terminar assim.
    Essa e so uma entre tantas outras historias que nao sabemos a respeito de racismo e discriminacao dentro da igreja.

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  5. Fui batizado em novembro de 1978. Conheci um membro negro que se desenvolveu muito no ormonismo: Helvécio Martins, ornou-se um líder importante, excelente orador mas muio rígido.

    Lembro-me que ele foi presidente de uma Missão no nordeste do país e na ocasião o seu filho mais novo pegou a chave do carro da missão e bateu com o mesmo. Por ter feito isso levou a maior surra...

    Ele foi Bispo da Ala da Tijuca Estaca Andaraí no Rio de Janeiro e mantinha a Ala a mão de ferro.

    Seu filho, Marcos Helvécio seguiu uma linha de extrema arrogâcia, soberba, pois se considerava o máximo no conhecimento mórmon.

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